A TERRA DOS QUATRO VENTOS

16/06/2010 01:42

 

A TERRA DOS QUATRO VENTOS

Autor: JUAREZ NUNES DA SILVA (25ª RT)

 

 

E os galhos frondosos dos eucaliptos e bracatingas vão estalando e rangendo, relando uns nos outros com a força dos ventos, que sopram mudando de direção, como um corte de tento. No ar, vai se espalhando um aroma que não tem arremedo, sob uma farfalhante sinfonia do agito das folhas do grande arvoredo. Ali, sob a sombra das árvores , encontra-se centenária casa velha, feita de pinheiro cortado na primeira serraria do lugar, ainda intacta das revoltas que presenciou. No seu interior, num estilo espartano, muito simples, uma grande cozinha com mesa de duas tábuas de canela, ladeada por dois bancos compridos, um fogão à lenha sempre com água quente pro chimarrão, uma pequena despensa e dez cômodos. Mais ao lado, um pequeno galpão junto à mangueira de pedra, tendal onde ficam espalhadas, no pequeno chão de tábuas cascurrentas, as batatas colhidas; num canto um laço de doze braças; do outro, duas bruacas velhas, um saraquá antigo e um samburá trançado de taquara. Pendurados no tirante maior, alguns arreiames e aperos.

Lá de dentro, se ouve o barulho de alguém destopando madeira com alguma ferramenta cortante e, de repente, uma voz forte e ordeira, de matrona, faz cessar o serviço:

-          Guri, pare de falquejar este camboim e me leva este milho até o moinho do Adão Chuva, e me traga, pelo menos, meio alqueire de farinha. Bombeia se ele não vai “mermá” o peso dos “grão”. Não deixe aquele “traste” te logra! Bamo, guri!

-          “Mãe véia”, to preparando um cabo de “soitera”, loco de Bueno e ....

-          Já te falei, guri, larga este traíra que era teu avô e guarda lá na travessa da Casa do Forno! Bamo, guri, te veste de serventia!

-          Diacho, eu ...

-          Guriii! Não seja cargoso e “maliducado”!

Era a velha Laudelina, de tamancos, que já batia marca em direção ao galpão: parecia um estouro de boi alçado no lageado. Num “upa” lá estava ela, e o guri, o seu único neto, nem careceu de terminar a prosa que “ideava” e remendou de relancina:

-          “Mãe véia”, as mula e os cargueiro tão com a peonada lá no “funderão”. Me sobra o “cigano” e o “papo-amarelo”. Vou de carreta.

-          Guri, mas tu gosta de te mostra! Por que haverá de se logo com a carreta que era do teu avô? Onde já se viu mexer com aquela “babilônia”, pra que leva uma arroba de grão até a tafona? Não vá me judia os “alimal”, que já fizeram a sua parte nesta vida!

Mas que nada, Onésio, rapazote de uns quinze anos, prenunciando um simulacro de bigode embaixo do nariz, já estava resolvido: ia de qualquer jeito com a carreta velha. Ele morava junto de sua avó, que tinha alguns agregados que lhe ajudavam no forte da colheita do feijão e do milho e, seguidamente, ela se ausentava por uns dois ou três dias lá pras caídas da Serra do Pinto, a “invernada das mutucas” como chamavam, pra ajuda-los a bater manguá no feijão. Na ausência da avó, Onésio se ocupava em cangar os bois na velha carreta e saia a “carretear” pelos carreiros do arvoredo, imitando o seu finado avô.

Mas que carreta! Um legítimo veículo serrano, de quatro rodas, alias, que nos perdoe os gabrielenses, mas carreta por aqui tem quatro rodas! Pois a dita foi encomendada para um carpinteiro caprichoso lá da Aratinga, mandado falquejar a melhor guajuvira para a canga, angico para os canzis, cabeçalho, cheda e recavéns; ipê para as cambotas, maças e raios; canela para o assoalho e tampas. As chapas para as rodas, parece que tinha mandado vir lá da capital. Ficou tão buena, que o próprio construtor se doeu de penas ao entregar a encomenda.

Certa feita, perto de uma velha escavação, ali dentro do mato, onde diziam que tinha um “guardado” de moedas de ouro, dos tempos dos escravos, Onésio se passou na manobra e trancou a roda dianteira da carreta num pé de acácia. Naquele dia, o guri descobriu que conhecia um montão de santos, pois rogou ajuda para uma porção deles e conseguiu se safar antes da “mãe véia” chegar.

Sem olhar muito para a avó, que quando ficava brava, mantinha até os assombros longe dali, foi até a despensa e apanhou um pedaço de pão de milho meio abatumado e enfiou no pesuelo. Ligerito como cavalo de carreira, cangou os bois e sem um sim ou um não, foi tratando de aprumar a carreta para o corredor. A velha “Lauda”, que fitava o guri com ar de desaprovação, tentou gritar para que o caipora deixasse a carreta, mas não conseguia, pois parecia ver o seu velho Reduzino a segurar a regeira e manobrar os bois como antigamente. Por alguns instantes, cerrou os olhos e o passado pareceu adiantar-se ao presente: sim, perecia o seu velho falando com carinho àquelas criaturas que pareciam entender o que precisava ser feito. As pernas quiseram afrouxar, mas que nada, o sangue maragato herdado do seu pai lhe fez voltar a ser o cerne duro que era, abriu os olhos marejados e gritou:

-          Vorteia esses bois, guri! Não me saia com esse ”alimal”!

Mas ele não mais ouvia e a carreta se distanciava. Lá no fundito da sesmaria de idéias de laudelina, havia um pouco de aprovação: “vai guri, que Deus te guie... mas que diacho!... este guri me lembra o velho” Reduza “! Logo, se deu conta que o guri estava com trajes de lida e daí, de toda a goela, gritou:

-          Não me vá mal enjambrado, tu vai dá de cara com a Lurdinha, tu parece um farrapo!

Sem olhar para trás, Onésio saiu chamando os bois, com inflexões de voz em vários “era boi”, “ôooo!”, “bamo papo-amarelo!”, “erate cigano!”. E o rasgo delgado na terra úmida ia marcando o corredor, pisoteado pelos cascos daquelas criaturas divinas, que iam espargindo baba pelo caminho. Agora, a lida não era às brincas, mas as devas. Onésio tinha que levar o milho e trazer a farinha, pois devia voltar antes do anoitecer. O seu pensamento não podia andar mais rápido que o passo dos bois, mas bombeava o horizonte e ainda ouvia a última palavra da “mãe véia”: “farrapo”. Ficou pensativo, pois não tinha entendido o que ela dissera. Mas, a memória pastoreou lembranças do tempo em que o avô estava vivo e dos causos que contava no galpão para a peonada, falando das façanhas dos farrapos contra os imperiais.

A carreta ia retrechando naquele passo agigantado de preguiça. Dando tiros de olhar para o lombo das coxilhas, passou a imaginar se por ali teria passado o grande Bento, o Souza Neto ou o sisudo Canabarro, que seu avô contava com orgulho. Ele falava como se aqueles homens fizessem parte da família dele.lembra que, às vezes, por segundos, o velho vidrava os olhos, eles ficavam brilhantes, estancava o mate, dava uma tragada no “baio”, feito a capricho, e dia: “pra ser farrapo naquele tempo, tinha que sê colhudo!”

Mas, já era hora de chamar os bois ronceiros pra disciplina, pois pareciam ter os cascos chumbados no chão. E o sol, quente que nem ferro de marcar, deixou os bois abobados. O guri sabia onde moravam as corujas e parou debaixo de uma grande figueira que oferecia uma sombra pra fidalgo nenhum botar defeito. Era ali que ia descansar os bois que, soltos, logo se adiantaram no azevem que cruzava à cerca da granja que ladeava o corredor. Recostou-se na figueira e ficou a observar o vento fazendo a pastagem ondular, numa valsa suave.

Era um mormaço de fazer sentinela de Caxias cochilar. Onésio logo dormitou e, num repente teve devaneios: começou a ouvir vozes de carreteiros chamando os bois, as buzinas das rodas rangendo. Pareciam ser três carretas vindo lá da antiga Cisplatina. O que traziam? Um equipamento tipográfico completo, potes de tinta e papel. É, eles tinham ido buscar o maquinário por ordem do General. Quem? Do Bento, é claro. Era para o mineiro Almeida propagandar a República. Era o vento pampeiro, trazendo as vozes que ainda ecoavam nos campos onde os farrapos derramaram seu sangue, para consolidar a afirmação da nossa raça.

E do litoral, o vento carpinteiro, trazia um sonho pra lá de louco: braços com rodas de carretas, três eixos, rodas gigantes, dezenas de juntas de bois, aquela gentama cutucando com as picanas o lombo dos bichos e “dê-le” grito; outros ajeitando o terreno alagadiço. Sim, era a grande epopéia de Garibaldi, buscando um porto para a nova Republica.

E o vento norte lhe arrepiava o lombo, a “mamangava” estava chegando, a revolução farrapa subia a serra e encontrava o “General Inverno”. Divisou, não muito longe, os Lanceiros Colorados, comandados pelo “Coronel Gavião”, quem? O Teixeira Nunes,a grande lança farrapa. Eram os escravos libertos vestindo camisas vermelhas e calças azuis, com gorros de pano encarnado.

Mas o que é isso? Uma caravana de carretas indo para os cerros de Caçapava. Os farrapos, apertados pelos imperiais, buscavam a segurança dos cerros e a República mudava de sede. Era o minuano soprando estas visões.

É, o inverno está forte e, que nada... o boi cigano estava lambendo o sal do suor do rosto do guri.levou um susto e já tratou de acolherar os bois. E logo, já estavam no corredor. Ficou pensando naquelas visões. Um orgulho desmedido de ser gaúcho lhe tomou a mente. Estava mais forte do que nunca, mais corajoso, mais senhor de si, pois sentia a energia dos farrapos no ar. Tratou de aviventar o passo dos bois e, em poucas horas, já estava no moinho.

Chegando no casario, cumprimentou a todos de “mão pegada”, ao costume da serra, pedindo “louvado” para os mais velhos. A Lurdinha, filha do velho Adão, ele cumprimentou olhando para as pontas destopadas da chinelinha de couro dela. No sufragante, já pediu atendimento, pois não tardava cair à noite e ele não queria dar de cara com o “gritador”, pois quando se via a serração pros lados das Contentas, ele aparecia! E ainda tinha que cruzar pelo Morro Agudo, lugarzito atentado! E o velho Adão, retouçando o guri, sai assustando:

-          Ué guri com tanta pressa, veio busca fogo? E esta carreta é pra leva toda a farinha do meu moinho? E desandou a dar gargalhadas.

E o guri ficou trocando orelhas, mas tinha sangue de taita e remendou:

-          Não mexe comigo se não eu passo a corda em todo mundo aí! Se a minha avó tivesse aqui, agora, ela ia te fazer lambe toda essa farinha que ta derramada no chão desse muquiço!

E o guri não agüentou carona e, mesmo com cara de terneiro mal lambido, foi saindo pela soleira da porta e não deixou por menos:

-          Eu não me achico com isso! E tem mais: se eu não carregá a farinha agora, minha vó vai idéia que aqui se negaram a me atende. Então eu só quero ver o sovéu distorcendo no lombo de “voceis”. E bamo logo, que eu ainda quero ver o brilho do sol na lagoa do Morro Agudo.

Pois é, foi só tocar no nome da velha “Lauda” que, num “já”, o velho Adão remanejou a farinha moída, tirando de alguém, e já colocava em cima da carreta. E o guri, com as idéias meio entordilhadas com os devaneios que teve, trazidos pelos quatro ventos, se sentia um verdadeiro taura farrapo, cheio de coragem diante daqueles retovados. Mas tinha que voltar antes da noite, pra não ter que enfrentar as aparições costumeiras do lugar. Ê ta, farrapo destemido..., mas só em dia de sol quente!

  

 
 
 

 

 


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